MEUS ENCONTROS COM EDUARDO

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Um ano atrás eu estava na redação da TV Clube Paraíba, onde trabalhava como gerente. Costumava almoçar na TV, mas naquela quarta-feira, 13 de agosto, acabei saindo, excepcionalmente, um pouco mais cedo, por volta das 11h, para ir buscar meu filho na escola e almoçar em casa. Entrei no carro e liguei o rádio na CBN, como sempre faço. Naquela hora já tinha a informação que um avião de pequeno porte ou helicóptero teriam se chocado e caído, em Santos, São Paulo. Pouco tempo depois de ligar o rádio, o apresentador Carlos Alberto Sardenberg informou que a aeronave do presidenciável Eduardo Campos estava desaparecido e que existia a possibilidade daquele desastre ter sido com o avião que ele estava. 5 minutos depois, veio a confirmação da tragédia.

Local onde o avião de Campos caiu, em Santos-SP
Local onde o avião de Campos caiu, em Santos-SP

O desaparecimento de Eduardo Campos e das outras 6 pessoas que estavam naquele avião me marcou bastante, porque eu tive a oportunidade de conviver com pelo menos 3 deles. O fotógrafo Alexandre Severo, o jornalista e assessor de Campos, Carlos Percol e o próprio Eduardo. Um ano após a morte do ex-governador de Pernambuco, lembrei de alguns encontros que tivemos e que começaram antes mesmo de imaginar que um dia eu seria jornalista. Gostaria de compartilhar essas histórias como você.

Eduardo Campos, assessor Carlos Percol, fotógrafo Alexandre Severo e cinegrafista Marcelo Lyra
Eduardo Campos, Carlos Percol, Alexandre Severo e Marcelo Lyra

Na década de 80, durante a campanha de Miguel Arraes para o governo de Pernambuco, minha mãe era uma daquelas militantes ferrenhas. Ela me levou até Surubim, 124 quilômetros do Recife, para assistir o comício de um amigo candidato a deputado federal, Artur Lima Cavalcanti (PMDB). Artur Lima era deputado estadual e minha mãe estava ajudando na campanha dele. O comício seria em uma fazenda, próxima da cidade. Quando chegamos no local vi o deputado conversar com algumas pessoas e ele acabou me apresentando um rapaz chamado Eduardo. Ele disse assim: “Esse aqui é neto de Arraes e vai ser o sucessor dele”. Na época, eu tinha 15 anos, Eduardo Campos estava com 20 e discursou naquele dia, comprovando toda eloquência que ele já carregava no sangue.

O avô e o neto. Miguel Arraes e Eduardo Campos
Miguel Arraes e Eduardo Campos

Dez anos se passaram depois daquele primeiro encontro. Arraes foi eleito duas vezes governador (1986 e 1994), Eduardo Campos foi chefe de gabinete do avô (1987), eleito deputado estadual (1991) e federal (1994) até assumir a secretaria da fazenda de Pernambuco (1995) no último mandato de Miguel Arraes, como governador. Naquele mesmo ano eu tinha retornado dos Estados Unidos e estava trabalhando na TV Tribuna, ancorando o Jornal da Tribuna. Recebi o convite para apresentar os shows da campanha “Todos Com A Nota”, uma promoção do governo do estado, que trocava nota fiscal por cupons, que davam direito a entrada de shows e sorteio de prêmios, como televisores e carros. Eduardo Campos foi o idealizador da campanha e nos 40 shows que eu apresentei entre 1995 e 1996, nos esbarramos em pelo menos 6 deles.

Em 1997 eu retornei aos Estados Unidos e voltei novamente para o Brasil, no ano seguinte para trabalhar na Tribuna, desta vez na Rádio Tribuna. Durante esse tempo, Eduardo foi reeleito a deputado federal e no ano seguinte ele visitou à Tribuna. Nós conversamos e pedi para ele gravar um spot para a rádio. De pronto, ele atendeu meu pedido.

Muito tempo se passou. Eu fui morar em São Paulo e retornei ao Recife, em 2002 para trabalhar na TV Guararapes, hoje TV Clube. Nesse ano, Eduardo assumiu o 3o mandato na câmara federal e em 2004 aceitou o convite do presidente Lula para ocupar o cargo de Ministro de Ciência e Tecnologia. Exatamente dez anos atrás, no dia 13 de agosto de 2005, faleceu Miguel Arraes. Fui designado para cobrir o velório do ex-governador, no Palácio do Campo das Princesas. Encontrei novamente com Eduardo Campos, agora em vez de alegria havia a tristeza e o choro por causa da perda do avô. Apesar de estar trabalhando em uma reportagem fui até ele e o cumprimentei. Ele me abraçou e agradeceu pelo conforto.

2006 chegou e com ele a campanha eleitoral. Fiz uma série de entrevistas com os candidatos ao governo do estado de Pernambuco, entre eles Eduardo Campos. Lembro da nossa conversa em off. Eu disse a Campos que apesar dele estar atrás das pesquisas, acreditava que ele virasse o embate. Ele sorriu e perguntou: “sério, você acha?” Eu disse que acreditava porque tinha informações de que, enquanto os principais adversários dele (Mendonça Filho-PFL e Humberto Costa-PT) estavam fora do estado, ele fazia campanha viajando Pernambuco de ponta a ponta. E ele respondeu brincando: “É verdade Beto! Eu tô cansando pra Cara…*”. Chegou a eleição e Eduardo foi eleito no 2o turno com 60% dos votos válidos.

Em janeiro de 2007 fui chamado pela Secretaria de Defesa Social para fazer um documentário sobre as atuações das polícias militar, civil e científica e a implementação do plano de segurança “Pacto Pela Vida”. Entrevistei Eduardo Campos mais uma vez, dessa vez como governador de Pernambuco. Falei pra ele: “eu não disse!” O governador simplesmente sorriu e disse: pois é, você estava certo!”

Após deixar a TV Clube no início de 2008, fui chefiar a comunicação da Secretaria de Transportes. Junto com o secretario Sebastião Oliveira tive vários encontros com o governador Eduardo Campos, mas um desses me marcou bastante. Durante um almoço, na casa do prefeito eleito de São Lourenço da Mata, Etorre Labanca (PSB), além de Eduardo, do dono da casa e do secretário Sebastião Oliveira, estavam presentes o presidente da Assembleia Legislativa, Deputado Guilherme Uchoa (PDT), o secretário de Turismo, Sílvio Costa Filho (PSC), o pai dele e deputado federal, Sílvio Costa (PSC). Era fácil notar naquele bate-papo informal entre “dinossauros” da política pernambucana a capacidade do governador em aglutinar e empolgar no discurso, mesmo numa conversa que parecia caseira. Ele falava sobre como o governo deveria agir com a população e que um processo de melhora social dependia única e exclusivamente daquelas pessoas que estavam ali e que tinham sido eleitas para serem os representantes de uma mudança profunda no desenvolvimento do estado. Era como se ele estivesse realmente falando sobre o povo, mas para o povo.

Depois de sair da chefia de comunicação da secretaria de Transportes, em 2009, retornei aos Diários Associados para gerenciar a TV Borborema(SBT), em Campina Grande, e depois assumir a TV Clube(BAND), em João Pessoa. Estou morando na Paraíba há 6 anos e o último encontro que tive com Eduardo Campos foi na sede da TV Clube, no Recife, no início de 2014, antes dele se declarar candidato à presidência da república. Eduardo me deu um abraço, como sempre fazia, e perguntou como estava à Paraíba. Eu disse que bem, mas que estaria melhor se ele me desse uma entrevista exclusiva. Ele respondeu que daria sem problema, era só marcar. Infelizmente aquela entrevista nunca aconteceu e a morte de Eduardo Campos, exatamente um ano atrás, foi um grande choque para mim e para o povo pernambucano.

Neste sábado você vai acompanhar no alemdapauta.com uma entrevista que eu fiz com o ex-secretário de imprensa do governo de Eduardo Campos, Evaldo Costa. Evaldo foi meu professor de redação na UNICAP e um dos articuladores da campanha de Eduardo ao governo de Pernambuco. Ele falou da perda de Eduardo Campos para os Pernambucanos e para o Brasil, além de das polêmicas e acusações de algumas pessoas sobre um suposto envolvimento de Campos na operação Lava Jato. Não perca!!!

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